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Esta crise não é diferente

Publicado em: Monday, September 20, 2010

As crises financeiras internacionais se assemelham, embora haja quem afirme o contrário. As causas dessas crises têm um denominador comum: irresponsabilidades fiscais e leniência do Estado na ordenação institucional dos agentes de mercado.

O Japão é um caso típico de leniência do Estado na política de desenvolvimento: todo esforço fiscal e creditício e a abertura de capital foram direcionados às empresas globais, exportadoras, porém quase nenhuma concessão era feita aos importadores e produtores locais. Com a crise do petróleo em 1973, os saldos comerciais se reduziram, e a ineficiência institucional emergiu e requereu vultosos recursos públicos. Em 2009, a dívida pública liquida atingiu 115% do PIB. É a maior divida do mundo. Há três décadas o Japão vive em recessão.
Os Estados Unidos trilham um caminho recessivo duradouro. Nos âmbitos social e institucional, a sociedade norte-americana prefere consumir mais do que é capaz de produzir, importar mais do que exportar, endividar-se mais do que poupar; os governos gastam mais do que arrecadam e o setor privado toma mais empréstimos internacionais do que o mercado financeiro nacional pode oferecer.

Com isso, edificou-se um modelo econômico insustentável: o nível de endividamento nacional- governos, famílias e instituições financeiras e não financeiras- está estimado é de US $ 50 trilhões: os norte-americanos devem um PIB mundial. O déficit público está em torno de 12% do PIB, a dívida líquida pública em 70% do PIB e o desemprego em torno de 10%. O modelo de financiamento econômico dos Estados Unidos chegou ao fim e terá de ser reinventado.

A China idealizou um modelo de crescimento invejável. Desde 1978, a atividade agrícola tornou-se competitiva e os setores de serviços e industrial exportam grandes volumes de bens para os consumidores norte-americanos. O modelo econômico chinês funciona da seguinte forma: os norte-americanos poupam pouco, e os chineses poupam muito e emprestam ao governo norte-americano parte expressiva das reservas internacionais que acumulam, vendendo bens e serviços para os consumidores norte-americanos. Criou-se um estado de dependência mútua.

A China tem superávit nas contas públicas em torno de 10% do PIB. A reserva internacional da China está em torno de US$ 2,3 trilhões. Isso equivale a quase uma vez e meia o tamanho do PIB brasileiro; representa 18% do PIB norte-americano ou 15% do valor das empresas existentes na Bolsa de Valores de Nova York. Cerca de 70% das reservas internacionais estão investidos em títulos públicos emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos.

O Brasil precisa se estruturar para obter taxa de crescimento sustentável. As causas das inconsistências do modelo brasileiro são inequívocas: a irresponsabilidade fiscal do governo central e a falta de uma agenda desenvolvimentista. O próximo Presidente da República deverá: promover uma reforma fiscal, flexibilizando a alocação de recursos e reduzindo os gastos correntes; realizar a reforma tributária, diminuindo a carga tributária para 30% do PIB; elevar os investimentos públicos de 0,50% para 2,5% do PIB; eleger na sua estratégia de desenvolvimento os setores de agronegócio, a indústria de transformação e as exportações; continuar as reformas microeconômicas; e incentivar as importações de bens de capital e de infra-estrutura para avançar na eficiência macroeconômica.

Com responsabilidade fiscal, rigor monetário, equidade tributária e uma agenda desenvolvimentista, o Brasil terá um lugar de destaque entre as potências econômicas mundiais.

Ernesto Lozardo
Professor de Economia da EAESP-FGV
Autor do livro Globalização: a certeza imprevisível das nações (2.ª edição)
Publicado no Jornal Brasil Econômico, em 2010 09 17, página 10.