Notícias

Escassez de Engenheiros: realmente um risco?

Publicado em: Friday, February 25, 2011

Considerações sobre o artigo: “Escassez de Engenheiros: realmente um risco?”
Roberto Leal Lobo e Silva Filho

Em recente publicação denominada “Escassez de Engenheiros: realmente um risco?”, publicado na sexta edição da revista RADAR, do IPEA, os autores informam que realizaram um pequeno ensaio sobre a evolução do emprego de engenheiros nos últimos anos no Brasil e s perspectivas para os anos futuros, dado que os cenários alarmantes costumam colocar o engenheiro como figura central do que classificam de “apagão de mão de obra qualificada”.
O artigo inicia identificando o requerimento técnico por engenheiro para a formação do produto interno bruto entre 2003 e 2008, comparando a evolução de engenheiros e de PB no período. Em seguida, por intermédio de uma regressão logarítmica,entre emprego de engenheiros e PIB, foram projetadas as quantidades de engenheiros potencialmente requeridas a cada ano entre 2009 e 2022, pra três cenários distintos, 3% de crescimento do PIB, 5% e 7%.
As projeções levaram e conta apenas as pessoas empregadas em ocupações identificadas como próprias dos “engenheiros, arquitetos e outros profissionais”, baseados em dados da Rais.

O número de formandos na área de formação denominada Engenharia, Produção e Construção foi extrapolado a partir dos dados de 1999 a 2008 para o período de 2009 a 2022.

A seguir os autores discutem o número de formados em um determinado período (2000 a 2008), em relação ao número de profissionais destas áreas em 2008, concluindo que somente 1 para cada 3,5 profissionais está presente no mercado específico de trabalho, ou seja, busca uma relação entre profissionais ativos e formados por ano. Este dado é obtido por uma regressão linear relacionando, anualmente, o número de profissionais e o número de formandos para a área considerada.

A conclusão dos autores é que para um crescimento de 3% do PIB a taxa de formação atual de profissionais é suficiente, para um crescimento de 5% do PIB, seria necessário atrair mais profissionais para o mercado específico, diminuindo a relação 1 para 3,5 para 1 para 2,5.

O artigo, portanto, defende a tese de que não há necessidade de formar mais engenheiros, dependendo do crescimento do PIB, mas que bastaria valorizar a profissão, aumentando sua atratividade para fazer com que mais formados se mantivessem trabalhando na área. É indiscutível que para aumentar o número de engenheiros em atividade reduzir o número de formados que exercesse atividades profissionais em outras poderia uma estratégia, se ela realmente se mostrasse viável, embora pudesse resultar no desabastecimento de mão de obra qualificada para outros setores da economia onde a formação técnica do engenheiro se adapta muito bem.

Estendido o propósito do trabalho e a metodologia empregada há várias questões que merecem ser analisadas.

Inicialmente, cabe assinalar que a relação 1 para 3,5 considerada como um problema brasileiro, se manifesta igualmente em países mais avançados tecnologicamente do que o Brasil. No EUA, este número é de um para três, como aqui, porque o engenheiro tem uma formação que o permite atuar em vários ramos de atividade, tanto em áreas técnicas como de gestão. Dificilmente, esta razão se modificará.

“About one-third of the employed people identified as scientist and engineers in the SESTAT surveys work in an S&E occupation”, dados da National Science Foundation, Division of Science Resources Statistics, 2002.

Admitindo esta realidade, o crescimento do PIB brasileiro provavelmente será efetivamente limitado por um apagão de mão de obra qualificada, a menos que aumente o número de engenheiros formados anualmente.

Quando se trata da área considerada no estudo do IPEA, denominada Engenharia, Produção e Construção pelo INEP, é preciso observar que ela inclui arquitetos, tecnólogos, produção de jóias, téxtil e indústrias do vestuário, entre outras. O requerimento técnico também inclui além de engenheiros profissionais de áreas correlatas como arquitetos, tecnólogos de nível superior, docência em engenharia, geofísica, biotecnologia, metrologia e outras.

Em estudo anterior, identificamos como engenheiros e formados e engenharia, as profissões assim rotuladas nos censos do INEP, por meio de filtragem da palavra Engenharia. Os tecnólogos de nível superior, profissões novas e ainda não regulamentadas, podem distorcer as estatísticas de crescimento introduzindo setores pouco relacionados com a formação necessária do engenheiro, não permitindo boas comparações.

É discutível, também, a relação direta entre o número de engenheiros, incluindo as profissões afins ou não, e o crescimento do PIB. Há, certamente, mais variáveis a considerar e outros fatores podem estar estimulando a procura pela engenharia do que o crescimento do PIB. Vamos entretanto aceitar como verdadeira esta relação.

Por estas razões, refizemos os cálculos apresentados no trabalho do IPEA baseados nas seguintes hipóteses:
1- Há uma relação logarítmica entre o requerimento técnico por engenheiros, arquitetos e profissionais correlatos e o crescimento do PIB;
2- É possível extrapolar o número de engenheiros formados nos próximos anos a partir da evolução histórica de 1999 a 2008;
3- É possível relacionar o requerimento técnico por engenheiros, arquitetos e profissionais correlatos e o número de engenheiros formados;
4- É possível prever a necessidade de engenheiros a partir da hipótese 1 como resultado de cenários que consideram diversas taxas de crescimento do PIB;
5- Como conseqüência, é possível comparar o número de engenheiros formados em um ano futuro com a crescimento do PIB.

Pode-se mostrar que para o crescimento do PIB de 3% ao ano, o crescimento do requerimento de profissionais aumenta a taxas de 5% ao ano, enquanto que para um crescimento do PIB de 5%, este aumento é de 8%, ou seja, o número de profissionais requisitados pelo mercado aumenta a taxas maiores do que o PIB.

Admitindo-se, como faz o grupo do IPEA, que o crescimento do número de formados em engenharia cresça linearmente (como é a hipótese do IPEA) pode-se, a partir dos dados do censo, prever que em 2015 o Brasil deverá formar 44.050 engenheiros, para uma necessidade de 46.511, se o PIB crescer a 3%, e 53.402, caso o PIB cresça 5%, anualmente. A necessidade será de 62.439 formados em engenharia para um crescimento anual de 7%.

Portanto, ainda que se aceite os argumentos e a metodologia dos autores, pode-se igulamente chegar à conclusão, provavelmente mais próxima da realidade, de que precisaríamos aumentar significativamente a produção de engenheiros (21%) para poder dar conta de crescimentos maiores do que 5% ao ano, o mínimo que se esperaria para que o Brasil pudesse manter sua posição ou avançar relativamente ao conjunto das nações. Um crescimento médio de 7% do PIB, anualmente, exigiria um aumento de 41% no número de engenheiros formados.

Os planos de investimento do Governo Federal como o PAC, por exemplo, correrão sério risco de insucesso se não for aumentada significativamente a quantidade e a qualidade dos engenheiros formados no Brasil.

Postado por Roberto Lobo em
http://professorrobertolobo.blogspot.com/2010/07/consideracoes-sobre-o-artigo-escassez.html